Remendo novo
Disseram-me que estou cascuda. Que tenho apresentado uma casca grossa ao redor do corpo, principalmente do coração. Disseram-me que já fui doce e hoje sou amarga. Que eu escrevia na areia as falhas dos outros e atualmente as esculpo em pedras. Chega um tempo em que o sofrimento vem de mala e cuia, invade a casa e se sente dono do lugar. Determina as nuances dos sentimentos que aquele coração terá, influencia em posturas, olhares, conversas. E então começa uma luta interior pela posse daquela terra que um dia já foi governada por um hóspede mais cavalheiro e menos invasivo. A luta produz ferimentos, sangramentos, mortes. Deixa o solo irregular, cheio de buracos e saliências, um lugar difícil de ser pisado. Quem pisa nele pode machucar o pé ou mesmo levar um tombo. E esses que se machucam por lá vão deixando um pouco do seu sangue, de suas marcas. E às vezes até aumentam os buracos sem querer... Mas o organismo é um excelente empreiteiro, que sabe, aos poucos, pavimentar aquele lugar, aplainar o solo, deixando-o pronto para ser novamente trilhado. No entanto, igual a uma rua recapeada, sobram as cicatrizes, os altos-relevos, aqueles trechinhos com piche recém colocado, que denunciam que ali já aconteceu uma batalha, um rombo, uma história. O coração não é mais novo em folha. Está reformado, não é mais o mesmo. Dentro dele, algumas coisas mudaram de lugar, mas ele ainda é um coração, ainda sabe amar. O recapeamento é feito em meio à vida, ao trânsito levemente desviado, mas fluindo, gente passando, o tempo rolando. É difícil a recuperação assim, afinal, aquele trecho é de fluxo intenso e não se pode colocar ali uma plaquinha: “Não pise! Cimento fresco!”. Tudo vai acontecendo ao mesmo tempo e quando o coração se dá conta a reforma acabou. E mesmo medroso, com remendos novos, doloridos, sem saber como recomeçar, é preciso aguentar o movimento voltando. Sua essência é a mesma, só precisa ser reencontrada.
Escrito por camila.csanches às 00h23
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